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20091114

Fotografia e/de Arquitectura:

 

















Café Museum
Friedrichstrasse 6 and Operngasse 7
1010 Vienna



Adolf Loos não tinha grande apreço pela fotografia de arquitectura. Chegou mesmo a redigir um belíssimo texto nesta sua ideia de que a fotografia na arquitectura era provida de falsidade, enganando, por vezes de forma pouco inocente, as suas obras.
Na viragem para este século, e com a democratização da era digital assistida por software, esse texto de Adolf Loos parece ter mais razão que nunca.
Em Portugal temos um caso particular do fotógrafo estrela, Fernando Guerra. É como se uma obra de arquitectura não seja publicamente reconhecida até passar pelos processadores dos computadores dos escritórios do fotógrafo. Vejo colegas que já pouco se dão ao trabalho de visitar as obras de outros autores in loco, extasiados que ficam sentados em frente do computador deambulando pelas imagens que se propagam pela rede.
É reconhecido a cisma do Arquitecto em retirar das fotografias tudo o que 'suja' as imagens que quer mostrar da sua obra. A ditadura da imagem, que preenche o ego do autor, chega a adiar a inauguração de uma obra até visita do fotógrafo, ao estilo populista versão auto-estrada. Neste âmbito a era digital veio facilitar e potenciar este desejo do falso belo. A fotografia, através de ferramentas poderosíssimas e muito úteis de computação, passou a estar muito para além do filme que retia a luz que trespassava pela lente sem lugar a enganos. Não sou inocente ao ponto de achar que estas manipulações da imagem são coisa recente, o que sublinho é a dimensão a que estamos a chegar, sendo cada vez mais frequente a questão: O que é a fotografia?
Pessoalmente faço uma distinção clara entre Fotografia e Imagem, querendo sempre salvaguardar o lado puro, sincero, directo, da Fotografia enquanto retrato fiel da realidade. É claro que isto pode-nos levar a uma outra questão: O que é o real? Bom; em frente.

Como amante das duas áreas, arquitectura e fotografia, questiono-me variadíssimas vezes como será possível uma relação mais sóbria e sincera entre as duas disciplinas quando estas se tocam. De que forma o arquitecto pode trabalhar de um modo mais sincero e directo aos interesses do dia-a-dia e menos contaminado pelo seu ego expresso na imagem? Como fazê-lo sem se marginalizar nesta actual era?
O assunto não é fácil e algo sensível, impostos que estão cada vez mais cânones que ninguém consegue caracterizar mas que todos seguem. A proliferação de revistas de arquitectura por todo o mundo, o estrelato do autor de projecto à escala regional, nacional e internacional, e a individualização do mesmo enquanto autor, cria uma conjuntura que nos deixa pouco tempo para reflectir.

Nesta semana, numa interessante entrevista que ouvi na rádio a Miguel Graça Moura, o mesmo, citando alguém que não retive o nome, disse que os grandes luxos do século XXI são o tempo, o espaço e o silêncio. Que bela descrição para a Arquitectura e Fotografia.

Jorge Garcia Pereira

1 comentário:

Luis Lacerda disse...

Caro Jorge, como te disse pessoalmente não sou nada do que escreveste sobre mim. Agradeço-te sim a amizade que é reciproca.

Interessante o ponto de vista que aqui levantas. Interessante mais ainda porque todos os problemas que encontras na relação da fotografia com a arquitectura são a meu ver transversais na nossa sociedade actual.

Hoje muito mais que ontem valoriza-se o imediato e os 'rodriguinhos' esquecendo-se o que dantes era a ética que deveria prevalecer nas nossas atitudes perante a sociedade ou numa obra por nós criada.
A holywoodizaçao tomou conta de nós. Toda a realidade tal como nos é mostrada é filtrada, trabalhada e reenquadrada para que no final seja um produto vendavel.
Como escreveste noutro sitio temos ideias radicalmente diferentes sobre muitas coisas, mas certamente concordarás que se o Orwell fosse vivo hoje rir-se-ia ao verificar como foi possivel criar este Big Brother (leia-se mercado) numa sociedade que tão activamente combateu ideologias totalitarias e os big brothers da politica.
Cá por mim a coisa é hoje já tão elaborada e sofisticada que começa logo em pequenas coisas como o Baby TV, da qual já conheço bebés seguidores e futuros consumidores domesticados, filhos de pais que se regojizam com a existencia de tal ferramenta.

Por isso Jorge, a arquitectura tal como o resto padece desse mal e a nós só nós resta fingir que alinhamos, para não parecermos uns rabugentos velhos do Restelo, enquanto pregamos diariamente o livre pensamento e demostramos, para quem nos queira ouvir e quando tal nos for possivel, que muitas das vezes afinal o rei está nú!