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20090514

Manuel Gomes Garcia (1922-2009):


























Escrevo estas linhas escassos minutos apenas de saber do falecimento do meu Avô, uma das pessoas mais importantes na minha vida e uma das que mais admirei.
O meu Avô deu-me lições notáveis de humildade e positivismo. Jamais ouviu falar de Voltaire, mas o meu Avô foi a pessoa que conheci que mais se aproximou da ideia criada de Cândido. Mesmo nos últimos dias nunca o ouvi queixar-se dos outros, para ele estava sempre tudo bem, a resposta quando as coisas não estavam perfeitas era um simples regular.
Morreu aos 86 anos, a 13 de Maio, o final da sua peregrinação. Não sou religioso, não me acredito no milagre de Fátima, embora ache que aquele lugar tem que ter uma força especial após tantos anos de devoção, de fé, de energia que os crentes que ali chegam lá depositam. A minha Mãe, sua filha, era devota, vinham-lhe as lágrimas a cada momento em que nos televisores de cromatismos fortes dos anos 80, aparecia um grande plano com a imagem de Maria. Talvez por tudo isso, por saber que muitos milhares já andavam pela estrada a caminho da procissão de velas e por ver o sofrimento em que o meu Avô estava mergulhado numa cama do hospital de Coimbra, já um pouco distante, no último momento em que estive com ele assumi o acender de uma vela se partisse no dia que hoje decorre no lugar santo. Ironias do destino, que está sistematicamente a pregar-nos lições de vida.
O meu Avô até aos últimos dos seus dias encarou a vida com optimismo. Vida aparentemente simples, agricultor de profissão, orgulhava-se da sua força e habilidade para as artes do campo, só se preocupava nos dias em que a chuva deveria de aparecer e teimava em não vir respondendo às preces dos cada vez mais veraneantes. Uma postura de vida extraordinária apesar de ter perdido a Mãe muito cedo e com pouco mais de 10 anos ter a responsabilidade dos irmãos mais novos a seu cargo. Mais tarde viu partir um filho com poucos meses de vida, e se outrora ouvia que a mortalidade infantil era muito elevada justificando tal perda hoje, e já Pai de uma menina de 19 meses, nem quero imaginar tal experiência. Anos mais tarde aprendeu as lides de casa após doença precoce da minha Avó, cozinhar, usar uma máquina de lavar roupa que a par do rádio e da televisão tenha sido talvez o único bem tecnológico com que privou entre tantas outras tarefas. Apenas dois anos após perder a esposa perdeu mais uma filha com 48 anos, minha Mãe. Mesmo depois de todas estas perdas, de todo o sofrimento por que passou, nos dias em que não se sentia na sua plenitude apenas me respondia aquando a pergunta:

- Como estás Avô?
- Regular.

Jorge Garcia Pereira
Fotografia: Coimbra (Portugal), 2009

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